vários tipos de pão no pãomania

PÃOMANIA

PARA TODOS QUE
ADORAM PÃO

Este é o nosso cantinho dedicado ao pão,
onde queremos levá-lo numa viagem que vai
muito além das receitas.

papo seco, carcaça ou molete

Papo Seco – Carcaça – Molete

O Papo Seco e a Carcaça são, na prática, o mesmo tipo de pão em Portugal, com a diferença no nome, que vai variando um pouco de região para região em Portugal. Outros nomes para papo seco mais comuns são: molete (no norte), bijou (em Lisboa e no Vale do Tejo), triguinho (em Braga), Bico (em Mira e Coimbra) e vieirinha (nas Caldas da Rainha).

Todos se referem a um pão pequeno, individual, de miolo branco e fofo, com uma caraterística crosta fina e estaladiça, e geralmente um vinco longitudinal ao meio. É um pão de consumo rápido, ideal para sandes ou para acompanhar refeições.

A sua receita tradicional é bastante simples, baseada em farinha de trigo, água, sal e fermento. A chave para a sua textura e crosta reside na alta hidratação da massa e na cozedura com vapor no forno.

Receita Tradicional Portuguesa de Papo Seco / Carcaça / Molete

Preparação: 2-3 H
Cozedura: 15-20 Min

160 a 180 Kcal/ por pão

10 a 12 pães (70/80 gramas)

Ingredientes

  • 500 g de farinha de trigo T65 (farinha de pão)
  • 320-350 ml de água fria (comece com 320 ml e ajuste se necessário, pode ir até 350 ml para uma massa mais elástica)
  • 10 g de sal fino
  • 8-10 g de fermento biológico seco (ou 25-30 g de fermento fresco de padeiro)
  • Farinha de trigo ou de arroz para polvilhar (q.b.)

Preparação

1. Mistura Inicial (Autólise)

  • Numa taça grande, misture a farinha com 300 ml da água (reserve o restante). Misture apenas até que toda a farinha esteja hidratada e não haja pó seco. A massa estará irregular e pegajosa.
  • Cubra a taça com um pano húmido ou película aderente e deixe repousar por 30 minutos. Esta etapa, chamada autólise, permite que a farinha absorva a água e o glúten comece a desenvolver-se naturalmente, facilitando a amassadura posterior.

2. Adicionar Fermento e Sal

  • Após a autólise, adicione o sal e o fermento à massa. Se usar fermento seco, pode polvilhar diretamente. Se usar fermento fresco, esfarele-o sobre a massa.
  • Adicione o restante da água (20-50 ml), aos poucos, enquanto amassa.

3. Amassadura

  • Na batedeira (com gancho de massa): Comece em velocidade baixa para incorporar o sal e o fermento (2-3 minutos). Aumente para velocidade média (2-3) e amasse por 8-12 minutos. A massa deve ficar elástica, lisa e começar a descolar das paredes da taça, embora ainda seja pegajosa.
  • À mão: Numa superfície limpa e ligeiramente enfarinhada (use o mínimo de farinha extra possível), amasse a massa vigorosamente por 15-20 minutos. Utilize a técnica de “esticar e dobrar” (stretch and fold): puxe uma parte da massa, dobre-a sobre si mesma e gire a massa. Repita este processo até a massa ficar suave, elástica e capaz de formar uma “janela” fina quando esticada (teste do ponto de véu).

4. Primeira Fermentação (Crescimento em Massa – Bulk Fermentation)

  • Transfira a massa para uma tigela grande, levemente untada com azeite.
  • Cubra com um pano húmido ou película aderente.
  • Deixe levedar em local morno (cerca de 24-26°C) por 1 a 1,5 horas, ou até a massa duplicar de volume.
  • Durante esta fase, pode fazer 1 ou 2 dobras (stretch and fold) a cada 30-45 minutos. Estas dobras ajudam a fortalecer a estrutura da massa.

5. Modelagem

  • Vire a massa para uma superfície levemente enfarinhada. Com as mãos, retire delicadamente o ar da massa (desgaseificar).
  • Divida a massa em porções individuais, com cerca de 70-80 g cada (para um papo seco/carcaça de tamanho tradicional). Deve obter cerca de 10-12 pães.
  • Para cada porção, boleie-a suavemente. Depois, achate ligeiramente a bola com a palma da mão para formar um disco.
  • Dobre o disco ao meio, pressionando suavemente a dobra com a palma da mão ou com a lateral do pulso para criar o vinco característico. Certifique-se de que as extremidades estão seladas (sem “costura” visível) para que o pão abra bem no vinco durante a cozedura.

6. Segunda Fermentação (Fermentação Final – Prova)

  • Coloque os papos secos/carcaças modelados em tabuleiros forrados com papel vegetal e polvilhados abundantemente com farinha (farinha de arroz é ideal, pois não é absorvida pela massa). Deixe espaço suficiente entre eles.
  • Cubra com um pano e deixe levedar em local morno por mais 30-45 minutos, ou até estarem visivelmente mais fofos e leves ao toque.

7. Cozedura com Vapor

  • Pré-aqueça o forno a 230-240°C (445-465°F) com uma pedra de cozer pão ou um tabuleiro pesado dentro, para que aqueça muito bem (idealmente por 30-60 minutos). Coloque também um recipiente metálico vazio no fundo do forno para criar vapor.
  • Com uma lâmina de padeiro (lame) ou uma faca muito afiada, pode aprofundar um pouco o vinco longitudinal em cada pão.
  • Com cuidado, transfira os pães para a pedra quente no forno.
  • Despeje rapidamente uma chávena de água quente no recipiente no fundo do forno (com cuidado para não se queimar!) e feche a porta imediatamente para reter o vapor.
  • Coza por 15-20 minutos, ou até que os papos secos estejam bem dourados e a soar oco ao bater na base.
  • Nos últimos 5 minutos, pode abrir ligeiramente a porta do forno para permitir que a crosta seque e fique ainda mais crocante.

8. Arrefecimento

  • Retire os pães do forno e coloque-os sobre uma grelha para arrefecerem completamente. É fundamental que arrefeçam totalmente antes de cortar para que o miolo assente e a textura se desenvolva plenamente.

Dicas para um Papo seco ainda melhor:

1. Ajuste na Hidratação (Mais Crosta, Mais Miolo)

  • Vá para o limite da água: A massa de pão portuguesa, muitas vezes, é de hidratação média-alta. Use 340-350 ml de água. Uma massa mais hidratada (mais ‘mole’) é mais difícil de trabalhar, mas resulta num miolo mais aberto e arejado e numa crosta mais fina e crocante.
  • Ajuste o sal: O sal é essencial para controlar a fermentação e fortalecer o glúten. Use 10-12 g de sal. Não o aumente em demasia, mas 10 g é o mínimo para garantir o sabor e estrutura adequados.

2. Melhoria na Autólise e Amassadura

  • Autólise com todo o líquido: Para uma autólise mais eficaz, experimente misturar a farinha com toda a água fria (320-350 ml) logo no início. Só adicione o sal e o fermento depois dos 30 minutos de repouso. Isso garante que a farinha absorva a totalidade do líquido, dando mais tempo ao glúten para se desenvolver.
  • Foco no Ponto de Véu: Seja à mão ou na batedeira, não encurte a amassadura. O objetivo é atingir o ponto de véu (a massa consegue esticar-se numa película fina, quase transparente, sem rasgar). Uma rede de glúten bem formada é crucial para que o pão mantenha a forma e desenvolva o miolo.

3. Fermentação (Mais Sabor e Textura)

  • Fermentação Lenta e Fria (Opcional): Se tiver tempo, uma fermentação mais lenta desenvolve sabores mais complexos (a “acidez” suave típica do bom pão). Após a primeira fermentação, pode colocar a massa na tigela, coberta, no frigorífico (4°C) por 8 a 12 horas (durante a noite). Na manhã seguinte, deixe-a regressar à temperatura ambiente por 30-60 minutos antes de modelar.
  • Dobra de Fortalecimento: Mantenha as dobras (stretch and fold) durante a primeira fermentação. São essenciais para fortalecer a massa mais hidratada. Faça 2 ou 3 dobras a cada 30-45 minutos.

4. Modelagem e Vinco (O Segredo do “Papo”)

  • Desgaseificação Suave: Quando for dividir e bolear a massa, faça-o de forma suave. Não retire todo o gás da massa; apenas o suficiente para quebrar as bolhas grandes.
  • O Vinco Característico: Este é o ponto mais crítico. O vinco é o que permite ao pão abrir e formar o seu “papo“.
    • Polvilhamento: Certifique-se de que a parte interior (que será o vinco) é bem polvilhada com farinha de arroz/trigo antes de dobrar. O vinco só abre bem se as duas faces polvilhadas não se colarem.
    • Pressão: O segredo é pressionar a dobra firmemente com a lateral da mão/pulso, mas não as extremidades. As pontas devem estar seladas, mas a linha central deve ser apenas pressionada para criar a linha de rotura.

5. Cozedura e Vapor (Crosta Perfeita)

  • Pré-aquecimento Máximo: A chave para uma crosta estaladiça é o calor inicial intenso e o vapor. Pré-aqueça o forno no máximo (240-250°C) com a pedra/tabuleiro por pelo menos 1 hora.
  • Vapor Abundante: O vapor mantém a superfície do pão macia por mais tempo, permitindo que cresça sem que a crosta endureça prematuramente.
    • Método da Gelo: Em vez de água quente, coloque cubos de gelo no recipiente metálico no fundo do forno assim que transferir os pães. O gelo derrete lentamente, criando um fluxo constante de vapor.
    • Duração: Mantenha o vapor durante os primeiros 5-8 minutos de cozedura, depois retire o recipiente e deixe o pão cozer em forno seco.
  • Ventoinha (Opcional): Se o seu forno tiver ventoinha (convecção), ligar nos últimos 5 minutos ajuda a secar e a endurecer a crosta.

Breve história do Papo seco

A história do Papo Seco (muitas vezes chamado de Carcaça) é fascinante, pois está intimamente ligada aos períodos de escassez e a uma inovação industrial que o popularizou e transformou.

O Papo Seco é o pãozinho tradicional, pequeno, de miolo macio e crosta estaladiça, que está enraizado na cultura gastronómica portuguesa. Originalmente era diferente do que conhecemos hoje. Segundo a etnóloga Mouette Barboff, que estudou o pão tradicional português:

  • O Formato Antigo: Era um pão mais barrigudo, com um vinco (corte) ao meio e as extremidades mais pontiagudas, o que levava as pessoas a chamá-lo carinhosamente de “pão com maminhas”.
  • A Origem da Escassez: A sua dimensão pequena (cerca de 50 g na época) popularizou-se em meados do século XX (década de 1950), durante o período do Estado Novo. O governo de António Salazar, perante a falta de cereais, impôs a redução do peso do pão sem alterar o preço, como forma de controlar as despesas e as importações.

A forma como o Papo Seco evoluiu para a moderna “Carcaça” está ligada a uma inovação na panificação, com foco na eficiência e rapidez de produção:

  • O Inventor: O pão que hoje a maioria dos portugueses chama de carcaça (e que no Norte se designa por molete) foi, na verdade, uma adaptação industrial do papo seco tradicional, feita pelo engenheiro químico Vítor Moreira (conhecido como o “Papa do Pão”).
  • O Problema a Resolver: O papo seco original, com as suas pontas aguçadas (“maminhas”), exigia que o padeiro usasse as duas mãos para o modelar corretamente. Isto tornava a produção mais lenta.
  • A Solução: Vítor Moreira retirou as extremidades pontiagudas e aplicou-lhe apenas a fenda longitudinal. Esta nova forma (a Carcaça) podia ser modelada com apenas uma mão e de forma muito mais rápida.

Esta alteração simplificou o processo de fabrico em massa nas padarias, tornando a Carcaça extremamente popular e acessível. Assim, a Carcaça é, tecnicamente, um papo seco sem as “maminhas”, criado para otimizar o tempo e a mão de obra.

As Diferentes Designações Regionais

Ainda que “Papo Seco” e “Carcaça” se usem hoje como sinónimos na maioria do país, há variações regionais importantes:

  • Papo Seco/Carcaça: Mais comum em Lisboa e a sul.
  • Molete: Nome tradicionalmente usado na zona do Porto e a norte.
  • Bijou: Mais comum em Lisboa e no Vale do Tejo.
  • Triguinho: Utilizado na zona de Braga.
  • Bico: Nome comum em Mira e Coimbra. 
  • Vieirinha: Nome tradicionalmente usado nas Caldas da Rainha.

Em qualquer dos casos, é um pão que nasceu da necessidade de criar um formato pequeno e eficiente, e que se tornou o veículo perfeito para a alimentação diária, seja simples ou recheado.

Este pão é ótimo para qualquer refeição, mas especialmente popular ao pequeno-almoço ou lanche, simples, com manteiga, queijo ou fiambre.

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